O meu nome é Manuela Julien; sou terapeuta da linguagem, linguista clínica e professora de língua (Português, a minha língua materna).

Depois de ter feito uma licenciatura em linguística aplicada fiz um mestrado em neurolinguística e um doutoramento em aquisição do Neerlandês como língua adicional por adultos e crianças com e sem distúrbios da linguagem.

Na Holanda trabalho como linguista clínica num centro de audiologia e linguagem onde uma equipa multidisciplinar faz exames diagnósticos. Esta equipa consiste de audiólogos, assistentes de audiologia, terapeutas da fala, linguistas clínicos, psicólogos e assistentes sociais.

Paralelamente a isto, na minha empresa ‘Clínica Babilónica’, dou aulas sobre distúrbios da linguagem, faço consultorias por exemplo a bibliotecas, escolas e municípios, e dou workshops e palestras a pais, a escolas e a terapeutas da fala tanto na Holanda como fora (Bélgica e Aruba). 

Estes são uns exemplos de atividades que tenho desenvolvido nos últimos anos.

Em 2008 escrevi um livro sobre diagnostico e terapia de problemas no desenvolvimento da linguagem em crianças multilingues. O livro é destinado a terapeutas da linguagem. Veja o site (em Holandês) https://www.pearsonclinical.nl/taalstoornissen-bij-meertalige-kinderen

Em 2012 escrevi uma proposta de um currículo para um curso de licenciatura na área da Terapia da Linguagem e da Fala a ser criado pelo ISCTEM (Instituto Superior de Ciência e Tecnologia de Moçambique) em Maputo, Moçambique.

Em Junho 2017 estive na ilha Neerlandesa de Aruba contratada pela Federação dos Centros Holandeses de Audiologia (FENAC). A visita de trabalho decorreu no contexto da cooperação entre a FENAC e a sua “irmã de Aruba” FEPO (Fundacion pa Esnan cu Problema di Oido = Fundação para todos com problemas de audição), que é membro especial da FENAC desde 2014. O objetivo da colaboração é fortalecer os conhecimentos na área da audiologia e dos distúrbios da linguagem em Aruba. Aruba, tal como a maioria dos países no mundo, é um país onde o multilinguismo é a norma. A maioria das crianças está, desde tenra idade, exposta a várias línguas incluindo as duas línguas oficiais: o Papiamento e o Neerlandês. O facto de o Papiamento ser uma língua creola baseada em grande parte no Português fez deste meu trabalho uma experiência muito agradável, porque percebia bastante do que ouvia à minha volta. E em termos linguísticos foi também uma experiência muito interessante e educativa.

A minha tarefa durante aquela visita foi de transmitir conhecimentos recentes nos campos dos distúrbios da linguagem e fala e do multilinguismo. A minhas atividades consistiram em dar três workshops a profissionais de diferentes disciplinas, incluindo médicos, enfermeiros, terapeutas da linguagem, outros terapeutas e professores; acompanhar e observar  terapeutas da linguagem e fala nas suas visitas escolares e nas sessões de terapia a algumas crianças. A estas sessões de terapia seguia-se uma discussão conjunta sobre abordagens no diagnóstico e terapia de crianças com deficiências na audição e na  linguagem.

A avaliação desta visita de trabalho, pelos participantes e organizadores, foi bastante positiva. Uns dias mais tarde recebi esta mensagem escrita por um dos participantes dos workshops:
“Aprendi a olhar de maneira diferente para crianças falantes de outras línguas. Temos árabes, chineses e também haitianos na escola e eu não conheço as línguas deles, mas agora já não me sinto intimidada ao trabalhar com essas crianças. Isso era o que acontecia antes do workshop “.

Este comentário deixa-me com o sentimento de tarefa cumprida!

A missão que me propus nos últimos muitos anos é a de consciencializar a sociedade e em particular pais, professores e terapeutas da linguagem a respeitar e valorizar o multilinguismo das nossas crianças; a parar de olhar e  de tratar as crianças multilingues como se fossem monolingues e a parar de fazer diagnósticos só na base do domínio da língua da escola, que para uma grande parte das crianças é uma língua segunda.

Quando crianças multilingues têm dificuldade em desenvolver a linguagem – o que acontece também com crianças monolingues pois o multilinguismo em si nunca é a causa de problemas no desenvolvimento da linguagem –  muita gente se pergunta se isto não será negativo. Esta é uma questão que é posta não apenas por leigos, mas também por profissionais.

O propósito da Clínica Babilónica é fazer a ponte entre a informação científica disponível e situações práticas com as quais profissionais, como por exemplo professores, terapeutas da linguagem, linguistas clínicos e psicólogos são confrontados no dia a dia. Por experiência própria sei que não é fácil aplicar a informação teórica no complexo trabalho diário de diagnóstico e de tratamento de crianças multilingues com distúrbios de linguagem.